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Do Areião ao Legado

Públicado em 25/09/2026 08:18, há 1 mês

Do Sonho no Areião à Serra Gaúcha: A Trajetória de Ezequiel Almeida

O texto a seguir eu construí a partir do meu próprio relato, contando a minha história com todas as lutas, as superações e a verdade de quem transformou o tatame em ferramenta de resgate.

Nascido em 23 de janeiro de 1982, costumo dizer que minha história de vida e no Jiu-Jitsu é feita de muita resiliência. Minha jornada no esporte começou lá em 2005, em Viamão, por insistência de um compadre que me convidou para treinar na Dela Riva com o professor Lula.

No início, a adaptação não foi fácil porque o treino gerava um profundo desconforto que, anos mais tarde, eu iria descobrir que vinha dos traumas e dos abusos que havia sofrido na infância. Foi graças ao apoio fundamental da minha esposa, que me ajudou a superar isso, que consegui vencer essas barreiras e, finalmente, deslanchar no Jiu-Jitsu. Como na época não havia academias perto de onde eu morava, acabei articulando para levarmos o Jiu-Jitsu para a academia de karatê do Sensei Aderino, onde eu já treinava.

Ao longo dos anos, expandi minha vivência marcial por diferentes cidades e escolas, passando pelo professor Jonas Almeida em Viamão, pela Cia Paulista em Itapecerica da Serra com o professor Giba, pela Scorpion/DFT em Porto Alegre, até chegar à Union Jiu-Jitsu em Gravataí com o professor Guilherme Freitas.

 

O Início em 2014 e a Fundação do Projeto

Cresci com uma mãe solo, ajudados por uma instituição cristã em momentos de muita dificuldade, e sempre carreguei essa veia social muito forte. Quando criei meu projeto social, que comecei de fato em 2014, confesso que não tinha ideia de que a iniciativa para transformar a vida daquelas crianças seria, ao mesmo tempo, uma forma de me ajudar a transformar e curar a mim mesmo, lidando com os reflexos dos abusos que eu havia sofrido na infância.

Em 2016 foi quando conseguimos a nossa primeira sede coberta, mas tudo começou na raça em Cachoeirinha. Enquanto trabalhava com adestramento de cães em uma praça, me deparei com várias crianças vulneráveis e envolvidas com drogas. Comecei a ensinar noções básicas e, logo, estávamos fazendo atividades físicas e treinos lúdicos de Jiu-Jitsu direto sobre o areião. Sem estrutura, caminhando mais de três quilômetros até uma academia parceira e contando apenas com a minha faixa azul, semeamos sonhos. Um pódio improvisado em um muro, com uma medalha fictícia e a frase “Um dia seremos campeões brasileiros”, virou nossa meta.

Após a perda dolorosa de dois meninos da comunidade que eu tentava proteger, a missão se tornou questão de vida ou morte. Com o apoio do Padre Erni da Paróquia Divino Espírito Santo e, depois, do projeto Gaditas, a coisa tomou corpo. Vendendo bolos, saladas de fruta e rifas, conseguimos juntar dinheiro para levar 32 crianças que nunca haviam competido para o Campeonato Brasileiro. Voltamos com 18 campeões brasileiros

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Sacrifício, Educação e Transformação Real

Eu sempre dei aula de graça, nunca recebi para dar aula no projeto. Eu dava aula o dia inteiro e saía para trabalhar à noite, fazendo faxina para poder manter a minha casa. Durante o dia, o sustento vinha das vendas de salada de fruta e bolo de pote que a gente fazia. Para manter os guris longe do crime, cheguei a pagar pensão para crianças não retornarem ao tráfico e continuarem treinando. Sofri ameaças de pais porque os filhos decidiram rasgar o dinheiro da droga e não queriam mais vender.

Inúmeras famílias foram transformadas pelo nosso trabalho. Famílias inteiras largaram o tráfico porque crianças que tinham vivido chacinas e traumas profundos, a ponto de tomarem medicações pesadas, recuperaram suas vidas ao frequentar o projeto.

Sempre fiz questão de trabalhar muito a mente e a educação deles. Eu dava aulas de reforço escolar de todas as matérias, lia para eles e incentivava a leitura. Fechamos uma parceria incrível com a Fundação Napoleon Hill e as editoras Citadel, ganhamos diversos livros e montamos a nossa própria biblioteca focada no autoconhecimento.

Durante a pandemia, com a ajuda da minha esposa e o suor do nosso trabalho, construí com as próprias mãos a sede do projeto no terreno de nossa casa. Chegamos a atender mais de 120 crianças, oferecendo cestas básicas e suporte integral, indo até dar aulas dentro de presídios para acompanhar alunos que tinham se perdido pelo caminho. Para incentivar os estudos e gerar renda, usei a internet emprestada de um vizinho para aprender a construir lagos ornamentais, o que virou a empresa Kamikoi, profissionalizando adolescentes pelo SENAI e atraindo até a amizade do lutador Charles do Bronx.

 

Honra, Lealdade e a Evolução para a Arte Viva

Depois recebi minha faixa preta das mãos dos meus grandes mentores, o professor Márcio Mendonça da Equipe A e o professor Fábio da Essência Jiu-Jitsu. Quero sempre ressaltar a gratidão e a lealdade que tenho ao professor Márcio. Ele tem o jeito dele, suas individualidades, e claro que há coisas em que podemos divergir, mas é um homem honrado, leal, que sempre teve muito amor e olhou para o próximo, nos ajudando imensamente. Tanto ele quanto o professor Fábio são homens que admiro profundamente.

A sede construída no terreno da minha casa e onde hoje funciona a Arte Viva continua sendo da Equipe A. Eu hoje estou na Alliance aqui na Serra Gaúcha, mas por um pedido meu, que foi acolhido de forma unânime pelos guris, lá em Cachoeirinha eles continuam sendo Equipe A. O meu coração é Equipe A pela gratidão a tudo o que construímos juntos.

Eu acredito muito no livre-arbítrio que Deus nos deu. Se Deus nos permite escolher por onde andar, quem sou eu para tirar o livre-arbítrio de quem está comigo? Amar é deixar que a pessoa escolha. Amo meus alunos como filhos, e faço questão que eles tenham a liberdade de caminhar com as próprias pernas, sem carregar nenhuma culpa ou o peso de se sentirem creontes por buscar o próprio caminho. O melhor para eles não precisa ser necessariamente comigo; tem que ser onde o coração e a mente deles estão.

Lembro de quando o mestre Cícero Costa passou pelo nosso projeto e levou oito meninos embora. Por mais que o plano inicial fosse prepará-los para tocar o projeto comigo, já que eu vinha bastante cansado, eu fiz de tudo para que eles fossem, porque sabia que era o melhor para o futuro deles. Alguns foram, outros ficaram, e dois dos que voltaram foram justamente os que recebi de volta e tive a honra de graduar à faixa preta em 2025, antes de vir para a Serra Gaúcha.

Esses dois guris, o Carlos Mendes e o Gabriel Nunes, são os responsáveis hoje pela Academia Arte Viva, que é a evolução natural do nosso antigo Nascidos para Vencer. O nome Arte Viva carrega a nossa essência: o projeto começou lá atrás com uma patrulha de cães, virou Patrulha Gaditas, passou a ser Nascidos para Vencer, e sempre foi uma arte viva, sofrendo as transformações e evoluções que a vida, a história e as vivências trazem.

Nenhum aluno meu dá aula de graça hoje; eles dão aula, trabalham e tiram dali o sustento de suas famílias, formando cidadãos e campeões na mesma sede que construímos com tanto suor.

Hoje, atuando na Alliance Bento Gonçalves e somando forças com projetos sociais locais, olho para trás e vejo diversos meninos que saíram do nosso projeto brilhando em várias academias. Isso me enche de orgulho, porque mostra que eles superaram os traumas, tiveram a hombridade de assumir suas próprias escolhas e venceram na vida.

 

Perguntas e Respostas 

 

1 - Half Guard : Ezequiel, sua história no Jiu-Jitsu começou em 2005, mas sua relação com o esporte foi muito além da prática marcial. Como o Jiu-Jitsu ajudou você a enfrentar seus próprios traumas e transformar experiências difíceis da infância em força para seguir em frente?

 

R: Ezequiel  O Jiu-Jitsu acabou sendo uma das ferramentas que me ajudaram a enfrentar tudo isso.

Eu comecei a perceber que aquilo que nos causa medo, muitas vezes, precisa ser enfrentado aos poucos. É como tratar uma aracnofobia: você não supera o medo de aranhas simplesmente fugindo delas; é necessário, de alguma forma, entrar em contato com aquilo que provoca o medo, respeitando os seus limites.

Eu tinha muita dificuldade com a questão do toque. Então, uma das formas que encontrei foi persistir, insistir, suportar aquele desconforto e tentar entender de onde ele vinha.

Com o tempo, algumas situações desencadearam lembranças que estavam escondidas. O nosso cérebro, muitas vezes, cria mecanismos para nos proteger e acaba afastando determinadas lembranças e situações dolorosas. Até que, em determinado momento, algumas dessas memórias vieram à tona.

Foi aí que eu comecei a entender o que realmente estava por trás daquele medo. Eu passei a conhecer aquilo que me assombrava. E, junto com isso, veio também a vergonha.

Porque, quando uma criança passa por determinadas situações, muitas vezes ela carrega a sensação de que precisa ter vergonha do que aconteceu, como se tivesse alguma culpa. E eu precisei enfrentar não apenas o medo, mas também essa vergonha.

O Jiu-Jitsu foi fundamental nesse processo. A cada treino, a cada contato, a cada situação desconfortável que eu conseguia enfrentar, eu dava mais um passo.

Não foi de uma hora para outra. Foi insistindo. Foi treinando. Foi encarando aquilo que antes eu queria evitar.

E, aos poucos, eu fui percebendo que aquilo que durante tanto tempo me assombrou não precisava mais controlar a minha vida.

Foi assim que o Jiu-Jitsu deixou de ser apenas uma luta para mim. Ele se tornou uma ferramenta de enfrentamento, de reconstrução e, principalmente, de superação dos meus traumas.

 

2 Half Guard - Em 2014 nasceu o projeto social que mais tarde se tornaria o Nascidos para Vencer. O que você encontrou naquela comunidade de Cachoeirinha que fez você perceber que precisava ir além de ensinar Jiu-Jitsu e começar a trabalhar pela transformação da vida daquelas crianças?

 

R: Ezequiel - O que eu percebi foi que tudo foi acontecendo por etapas, foi escalonando. Aos poucos, eu fui entendendo o que realmente precisava ser feito.

No começo, eu achava que ensinar as crianças a treinar e, antes disso, trabalhar com o adestramento de cães seria suficiente para mantê-las longe das drogas. Eu pensava que, ocupando o tempo delas com uma atividade, estaria evitando que entrassem nesse caminho.

Depois, percebi que elas precisavam de algo a mais. Era quase como substituir um vício por outro, mas por algo saudável. Foi então que comecei a introduzir a prática do Jiu-Jitsu.

Com o Jiu-Jitsu, eu percebi que existia aquela descarga de energia, aquela adrenalina, aquela sensação de realização. Mas logo entendi que isso também não era suficiente. Eles precisavam de um objetivo. Precisavam de algo que os fizesse sonhar mais alto.

Foi aí que comecei a introduzir as competições.

Eu fazia uma espécie de troca: se eles se mantivessem na linha, poderiam participar de uma competição. Eu os levava para competir, e aquilo começou a despertar neles o gosto pelo desafio, pela conquista e pela superação.

Só que, com o tempo, percebi outra coisa: a competição, sozinha, não transformaria as crenças limitantes que muitos carregavam. Não eliminaria o vitimismo.

Então comecei a trabalhar uma ideia fundamental com eles: eles não eram vítimas da própria história; eram protagonistas dela.

Eu ensinava que, independentemente do que tivesse acontecido no passado, aquilo não precisava determinar o futuro.

Porque existe uma tendência de a nossa mente continuar reproduzindo padrões que aprendemos ao longo da vida. E eu percebi que, se eu quisesse realmente ajudá-los, precisava ir além do tatame.

Precisava trabalhar uma transformação de consciência.

Foi aí que comecei a utilizar diferentes ferramentas: Jiu-Jitsu, literatura, autoconhecimento, psicologia e técnicas de desenvolvimento pessoal. O Jiu-Jitsu era a porta de entrada. Era através dele que eu conseguia aproximá-los, criar vínculo e, a partir dali, desenvolver um trabalho mais profundo.

E existe uma coisa em que eu acredito muito: a decisão nunca é do professor. A decisão é do aluno.

É o aluno que decide se quer ser campeão. Tanto dentro do tatame quanto fora dele.

O professor pode mostrar o caminho, pode oferecer ferramentas, pode incentivar, pode orientar. Mas quem precisa dar os passos é o próprio aluno.

E foi trabalhando essa consciência que comecei a perceber algo ainda mais profundo.

Muitos deles se tornavam campeões. Ganhavam medalhas, subiam no pódio, recebiam reconhecimento. Mas, mesmo depois de conquistar aquilo, alguns não conseguiam sustentar essa sensação de valor.

A medalha começava a funcionar quase como uma afirmação:

“Olha, eu existo. Olha, eu estou aqui. Olha, eu sou importante.”

E aí eu percebi que existia uma grande armadilha.

A pessoa não precisa ser campeã para saber que é importante.

Quando a medalha passa a ser a única prova do seu valor, existe alguma coisa por trás dela que precisa ser trabalhada. Muitas vezes, existe uma sensação de não merecimento, uma carência afetiva, uma necessidade de reconhecimento.

E comecei a perceber também o quanto a base familiar fazia diferença.

Quando existe um pai, uma mãe ou alguém que exerça esse papel de apoio, incentivo e presença, isso pode fazer uma diferença enorme na formação daquela criança.

Quando esse suporte não existe, algumas feridas podem permanecer abertas e criar barreiras que dificultam que ela siga em frente.

Foi aí que eu entendi que o meu trabalho não poderia ser apenas formar campeões.

Eu precisava ajudar a formar pessoas que entendessem o próprio valor — com medalha ou sem medalha.

Porque o verdadeiro resultado não está apenas em subir no pódio.

Está em conseguir sair do lugar onde a pessoa acreditava que estava condenada a permanecer e descobrir que ela pode escrever uma história diferente.

 

3 Half Guard - Você saiu de treinos no areião, sem estrutura e contando apenas com uma faixa azul, até levar 32 crianças ao Campeonato Brasileiro e voltar com 18 campeões brasileiros. O que representou aquele momento para você e para todos aqueles meninos que aprenderam a sonhar através do Jiu-Jitsu?

 

R: Ezequiel - Aquilo representou muito mais do que simplesmente levar aquelas crianças para uma competição.

Eu nunca escondi deles a realidade. Sempre procurei mostrar as coisas como elas realmente eram. Nunca tentei aparentar ser aquilo que eu não era, nem representar um personagem para eles.

Naquela época, eu ouvia muitas piadas. Existia muita perseguição também. Diziam: “Professor faixa branca”, “faixa branca não pode dar aula”, “faixa colorida não pode ensinar”.

E eu sempre respondia da mesma maneira:

“Então que venham os faixas-pretas dar aula.”

Porque o meu objetivo nunca foi aparecer através do Jiu-Jitsu. Nunca foi formar campeões simplesmente para colocar uma medalha no peito e dizer que aquele projeto era meu.

O meu objetivo era outro: resgatar vidas.

Eu sabia que, se eu não conseguisse prender a atenção daqueles meninos, se eu não oferecesse alguma coisa que despertasse neles um propósito, eles poderiam acabar encontrando esse pertencimento em outro lugar — inclusive no crime.

Então eu precisava fazer alguma coisa.

Quando surgiu a possibilidade de disputar o Campeonato Brasileiro, aquilo se transformou em uma ferramenta muito poderosa.

Eu percebia que uma das grandes dificuldades eram os custos das competições. Os campeonatos que existiam na época tinham inscrições caras, e eu costumava levar de 30 a 50 atletas.

Eu nunca quis simplesmente uma inscrição gratuita.

Eu queria um valor mais justo, um desconto que me permitisse levar uma quantidade maior de atletas.

E não era uma questão financeira para mim.

Era uma questão de oportunidade.

Quanto mais crianças eu conseguisse levar, mais vidas eu poderia manter ocupadas com um objetivo saudável.

Mas havia outra coisa importante: eu não queria simplesmente dar tudo para eles.

Eu queria que eles aprendessem a conquistar.

Por isso, começamos a criar maneiras de arrecadar o dinheiro. Eles vendiam rapadura, prestavam pequenos serviços, cortavam grama, corriam atrás de ajuda. Cada um precisava participar da construção daquele sonho.

Isso mantinha os meninos engajados.

Eles não estavam simplesmente esperando alguém dar alguma coisa. Eles estavam trabalhando para conquistar aquilo que queriam.

E isso, para mim, tinha um valor enorme.

Eu particularmente nunca gostei do chamado “pedágio solidário”. Nunca gostei da ideia de colocar uma criança na rua para pedir dinheiro.

Porque eu tinha uma preocupação: aquilo poderia criar uma associação na cabeça daquela criança de que as pessoas têm obrigação de dar, de que sempre alguém precisa resolver o problema por ela.

E eu não queria formar pessoas com essa mentalidade.

Eu queria ensinar dignidade.

Queria ensinar que existe uma diferença enorme entre pedir ajuda e construir uma oportunidade.

Quando você procura um patrocínio, por exemplo, você não está simplesmente pedindo dinheiro. Você está oferecendo uma contrapartida. Você está divulgando uma marca, oferecendo um trabalho, criando uma parceria.

É diferente.

Eu queria que eles aprendessem justamente isso: não existe vergonha em pedir uma oportunidade; existe valor em aprender a construir essa oportunidade.

E, quando começamos aquela campanha para chegar ao Campeonato Brasileiro, aconteceu algo que me marcou muito.

Durante aproximadamente seis meses, eu não precisei me preocupar da mesma maneira que antes.

Antes, praticamente todos os meses eu precisava encontrar alguma competição para manter aqueles meninos envolvidos, ocupados e focados em alguma coisa.

Dessa vez, nós tínhamos um grande objetivo.

Eram seis meses de preparação, de trabalho, de arrecadação, de treinamento, de expectativa.

Claro que tivemos dificuldades. Tivemos percalços. Nem tudo foi fácil.

Mas havia um propósito maior.

E manter aqueles meninos engajados ficou muito mais fácil porque o objetivo era grande.

Era um campeonato de nível nacional, uma competição que, para muitos deles, representava algo que parecia distante e até impossível.

Muitos nunca tinham tido a oportunidade de viajar para fora da nossa região para competir em um evento desse tamanho. Para eles, chegar naquele campeonato significava muito mais do que entrar em um tatame.

Significava poder sonhar.

E foi aí que eu percebi ainda mais claramente o poder que o Jiu-Jitsu poderia ter.

O campeonato era apenas o destino.

O verdadeiro trabalho estava nos seis meses de caminhada até chegar lá.

Porque, durante aqueles seis meses, eles estavam treinando, trabalhando, aprendendo a se organizar, buscando ajuda, assumindo responsabilidades e, principalmente, aprendendo que um sonho pode deixar de ser apenas um desejo quando você começa a trabalhar por ele.

Era isso que eu queria ensinar.

Não era sobre ganhar uma medalha. Era sobre aprender a lutar pela própria vida.

Aquilo representou muito mais do que uma competição.

Eu lembro que muitos deles ouviam piadas sobre mim. Eu nunca escondi deles a realidade. Sempre procurei mostrar as coisas como elas realmente eram. Nunca tentei mostrar aquilo que eu não era, nunca tentei representar um personagem.

Naquela época, havia muita perseguição. Falavam: “Professor faixa branca”, “faixa branca não pode dar aula”, “faixa colorida não pode dar aula”.

E eu dizia: “Então que venham os faixas-pretas dar aula.”

Porque o meu objetivo nunca foi aparecer através do Jiu-Jitsu. Nunca foi simplesmente formar campeões.

Meu objetivo era resgatar vidas.

Eu sabia que, se eu não fizesse alguma coisa para prender a atenção daqueles meninos, para dar a eles um objetivo, um caminho e um lugar onde eles se sentissem pertencentes, eles poderiam acabar encontrando isso em outro lugar — e eu sabia que esse outro caminho poderia ser o crime.

Então eu precisava fazer alguma coisa.

Quando nós propusemos a ideia de ir para o Campeonato Brasileiro, aquilo se transformou em uma ferramenta.

Eu percebia que uma das grandes dificuldades eram os custos das competições. Naquela época, os campeonatos eram muito caros, e eu levava de 30 a 50 atletas.

Eu nunca quis inscrição gratuita.

O que eu queria era um desconto, um preço mais justo, porque isso me permitiria levar uma quantidade maior de atletas.

E não era simplesmente uma questão financeira.

Era uma questão de poder alcançar mais vidas.

Ao mesmo tempo, eu queria que eles valorizassem aquilo.

Por isso, eu não queria que tudo fosse simplesmente dado. Eu queria criar uma ferramenta para que eles corressem atrás do próprio sonho.

Eles vendiam rapadura, prestavam serviços, cortavam grama, procuravam ajuda. Cada um fazia a sua parte.

E isso mantinha os meninos engajados.

Eles começavam a entender que, quando você quer alguma coisa, precisa trabalhar por ela.

Eu particularmente nunca gostei de pedágio solidário. Nunca gostei daquela ideia de colocar a criança para pedir dinheiro.

Porque eu via muitos meninos fazendo isso e tinha uma preocupação: aquilo poderia criar uma mentalidade de que as pessoas têm obrigação de dar, de que alguém sempre precisa resolver o problema.

E eu não queria isso para eles.

Eu queria ensinar dignidade.

Queria ensinar que existe uma diferença entre simplesmente pedir e buscar uma oportunidade.

Eu sempre dizia para eles que existe uma diferença entre pedir uma ajuda e buscar um patrocínio.

Patrocínio é uma forma de trabalho. Você está divulgando uma marca, oferecendo uma contrapartida, construindo uma parceria.

Eu queria que eles aprendessem a correr atrás.

Que não ficassem dependentes de alguém dar alguma coisa.

E, quando começamos aquela campanha para chegar ao campeonato, aconteceu algo muito importante.

Foram seis meses de preparação.

Durante seis meses, eu não precisei me preocupar como antes, quando praticamente todos os meses precisava encontrar uma competição para manter aqueles meninos envolvidos e longe daquilo que não era correto.

Agora nós tínhamos um grande objetivo.

Claro que tivemos dificuldades. Tivemos percalços. Não foi fácil.

Mas eles tinham uma meta.

E era uma meta grande.

Era um campeonato de alto nível, uma competição que representava algo muito distante para muitos deles. A maioria daquelas crianças não tinha condições de viajar para fora para disputar um Mundial.

Então, aquela oportunidade de disputar uma competição daquele tamanho passou a representar muito mais do que simplesmente entrar no tatame.

Representava a possibilidade de sonhar.

E foram seis meses em que eles estiveram envolvidos, treinando, trabalhando, buscando ajuda, fazendo a parte deles e aprendendo que um sonho não acontece simplesmente porque você deseja.

Você precisa correr atrás dele.

E foi aí que eu percebi que o campeonato era apenas uma ferramenta.

O verdadeiro resultado estava no caminho até chegar lá.

Porque, durante aqueles seis meses, eles estavam aprendendo muito mais do que Jiu-Jitsu.

Estavam aprendendo responsabilidade, disciplina, esforço, perseverança e, principalmente, que eles também eram capazes de construir alguma coisa para as próprias vidas.

No final, não era apenas sobre ganhar uma medalha.

Era sobre dar a eles um motivo para continuar caminhando na direção certa.

 

4 - Half Guard - Ao longo dessa trajetória, você construiu muito mais do que uma equipe: formou pessoas, professores e cidadãos. Hoje, vendo a Arte Viva continuar pelas mãos de Carlos Mendes e Gabriel Nunes enquanto você segue sua caminhada na Serra Gaúcha, qual é o verdadeiro legado que você acredita ter deixado no projeto?

 

R: Ezequiel - O verdadeiro legado que eu acredito ter deixado para toda essa galera que passou por mim ao longo desses 12 anos é muito maior do que simplesmente formar campeões.

A questão de ser campeão fez parte da caminhada, claro. Foi algo que eu busquei e que eu incentivei. Mas, com o tempo, eu percebi que existia algo muito maior que eu queria deixar para eles: a liberdade.

Eu penso muito sobre o que significa ser livre.

Fala-se muito, quando estudamos a história, sobre a escravidão e sobre todos os povos que foram submetidos à escravidão física. Foram pessoas acorrentadas, algemadas, chicoteadas, privadas da liberdade.

Tudo isso é terrível.

Mas, pela experiência que eu vivi na minha própria infância, comecei a refletir muito sobre outro tipo de prisão: a prisão psicológica.

Quando eu era criança, eu preferia mil vezes apanhar. A dor física, por mais que doesse, passava.

O que me marcava muito mais era a pressão psicológica, aquela sensação de estar preso dentro de determinadas crenças e medos.

A dor física eu praticamente esqueci. Hoje, muitas coisas que aconteceram fisicamente eu nem consigo lembrar com clareza.

Mas determinadas experiências psicológicas deixam marcas muito mais profundas.

E isso me fez pensar que, de certa forma, muitas pessoas vivem presas dentro da própria mente.

Presas em crenças que foram impostas.

Presas no medo da opinião dos outros.

Presas em rivalidades.

Presas em ambientes onde não se sentem bem, mas permanecem ali simplesmente porque têm medo do que os outros vão pensar.

E isso também acontece dentro do próprio Jiu-Jitsu.

É por isso que sempre procurei incentivar a integração entre as equipes, levar uma equipe para conhecer outra, promover encontros, aproximar pessoas.

Porque, para mim, o Jiu-Jitsu nunca deveria ser uma prisão.

O Jiu-Jitsu deveria ser uma ferramenta de liberdade.

Eu vejo pessoas anulando a própria vontade, deixando de expressar o que pensam, deixando de fazer aquilo que gostariam, simplesmente por medo de julgamento.

E, quando uma pessoa passa muito tempo se negando, se negligenciando e vivendo contra aquilo que realmente pensa e sente, isso pode trazer consequências para a própria vida.

Por isso, o principal legado que eu procurei deixar foi justamente esse:

Pensem por vocês mesmos.

Eu queria que eles pudessem pensar fora da caixa.

Queria que eles pudessem discordar de mim.

Queria que eles pudessem me olhar não apenas como professor, faixa-preta ou alguém que construiu uma história dentro do Jiu-Jitsu.

Eu queria que eles me enxergassem como ser humano.

E que me tratassem bem não porque eu sou faixa-preta, mas porque eu sou um ser humano.

Da mesma maneira que uma pessoa que acabou de chegar, um faixa-branca ou alguém que nunca pisou em um tatame também merece ser tratado como ser humano.

Porque, para mim, acima do Jiu-Jitsu existem pessoas.

Acima das bandeiras existem pessoas.

Acima do Jiu-Jitsu estão os seres humanos.

Esse foi o legado que eu procurei deixar.

Eu sempre procurei não impor aquilo que eu pensava. Quando comecei a estudar mais sobre expansão de consciência e autoconhecimento, percebi ainda mais a importância de permitir que cada pessoa faça suas próprias escolhas.

Mas existe uma coisa que eu sempre deixei muito clara para eles:

Toda escolha tem uma consequência.

A escolha é de cada um, mas as consequências também pertencem a cada um.

E existe outra coisa que eu sempre dizia:

“Não existe nada que vocês possam fazer que faça com que eu deixe de amar vocês. Nada.”

Eu aprendi a separar duas coisas que muitas vezes confundimos: amar e gostar.

Amar é querer o bem.

Eu posso continuar querendo o bem de uma pessoa independentemente das escolhas que ela faça.

Mas gostar é diferente.

Se alguém começa a tomar atitudes que não condizem com aquilo que eu acredito, com aquilo que considero correto ou com os valores que procuro viver, eu posso não querer estar perto daquela atitude.

Posso não gostar daquele comportamento.

E tudo bem.

Isso não significa deixar de amar aquela pessoa.

Eu posso continuar querendo o bem dela, mas também posso deixá-la assumir as consequências das próprias escolhas.

Porque amar alguém não significa proteger essa pessoa de todas as consequências daquilo que ela escolheu fazer.

Às vezes, amar também é permitir que a pessoa caminhe, erre, aprenda e assuma a responsabilidade pela própria vida.

E é isso que eu procurei ensinar durante esses 12 anos.

Eu sei que alguns captaram a mensagem e outros talvez não tenham captado.

E tudo bem.

Cada pessoa tem o seu tempo, suas escolhas e suas consequências.

O meu papel nunca foi controlar o caminho de ninguém.

Foi mostrar que existe um caminho.

E, no final, se existe alguma coisa que eu realmente gostaria que essas pessoas levassem consigo depois de terem passado pela minha vida, não é uma medalha, não é um título e nem uma faixa.

É a capacidade de pensar por conta própria.

É a coragem de questionar.

É a liberdade de escolher.

E, principalmente, é entender que, independentemente da bandeira que você veste, da equipe a que pertence, da faixa que você usa ou da história que construiu, antes de qualquer coisa, você é um ser humano.

E foi esse legado que eu procurei deixar.

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Half Guard - Aguarde a Parte 2 Ezequiel Almeida e Half Guard Jiu-Jitsu Compny 

Fonte: Ezequiel Almeida

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